
RIQUEZAS DO CURUZU ?
Através do corredor cultural, baianos e turistas têm contato com a culinária, artesanato e religião afro-brasileiros"
Quem é que sobe a Ladeira do Curuzu? E a coisa mais linda de se ver, é o Ilê Aiyê". Pode até ser a coisa mais linda, mas existem outras maravilhas para se ver, comer, comprar e conhecer na Ladeira do Curuzu. Quem vem da parte baixa da ladeira passa pelo Terreiro do Ilê Axé Jitolu, de Mãe Hilda, matriarca do Ilê, e leva na bagagem cultural um pouco das raízes do candomblé. Mais alguns passos e cai na casa de Dete Lima (Arte em Tecido), onde uma oferta de artigos bordados com representações dos orixás encanta até quem é da terra. Depois de tanto esforço para subir a ladeira íngreme, nada melhor que comer uma feijoada no restaurante Wa-jeum de Mainha e, de sobremesa, o arroz doce do Wa-jeum de Iaiá, uma lanchonete ao lado do restaurante. Respire, ainda está na metade do Corredor Cultural do Curuzu - uma iniciativa da comunidade que pretende valorizar e divulgar a diversidade cultural e étnica existente no local, apresentada à sociedade e aos patrocinadores anteontem.Nada de descanso depois do almoço. É chegada a hora de conhecer mais do artesanato produzido na região. A menos de 50m do restaurante está a Fionga - Curuzu é o meu lugar - a casa de uma artista plástica que produz pintura em tela e vestidos de noiva feitos com fuxico (técnica artesanal de confecção). Após as compras, um espaço de beleza voltado para a estética afro-brasileira espera os visitantes. É o salão Gerusa das Tranças. Ainda na metade do corredor, uma diversidade de artesanato feito de miçangas, nas lojas Medida do Curuzu e no Patuá no Curuzu. Mais adiante, no Cheiro do Curuzu, perfume artesanal próprio para ambientes. Até o final do percurso tem mais outros 20 locais, que têm algo a oferecer aos visitantes.Segundo Valdéria das Virgens, presidente da Associação dos Moradores e Amigos do Curuzu (Amac), há oito anos, a comunidade tenta pôr em prática esse passeio cultural pelo Curuzu, mas somente agora, o Sebrae e a prefeitura se disponibilizaram a ajudar. "A nossa cultura está aqui, existe, nada é inventado. A idéia é dar visibilidade a nossa riqueza cultural, a tudo que temos para mostrar. Fazer com que turistas passem por aqui e percorram todos os pontos que têm algo a oferecer, é uma forma de valorizar a cultura e gerar renda para a comunidade", disse Valdéria. Dona Nilza das Virgens, 61 anos, do Wa-jeum de Iaiá (que fica na casa nº258, onde mora), prepara deliciosos quitutes, mingaus e arroz doce. Nascida e criada na Ladeira do Curuzu, ela diz que vender as iguarias, além de lhe trazer dinheiro, é uma forma de difusão da culinária afro.Dona Nilza explica que as mucamas faziam esses tipos de comidas para agradar seus senhores feudais, mas mesmo depois de libertas continuavam fazendo e vendendo as iguarias com intuito de conseguir dinheiro para alforriar seus maridos. As mãos dela não são boas só para culinária, mas também para o artesanato de fuxico. Ela conta que é artesã há mais de 40 anos, mas nunca pensou em abrir um comércio e vender as peças que produz para tu-ristas. "Sempre fiz roupas para minhas meninas e para os vizinhos. Agora com essa idéia de corredor cultural, vou poder também vender as roupas", comemorou.***Vivência da históriaO Curuzu localiza-se no centro da Liberdade, possui 16 terreiros de candomblé, diversas manifestações culturais, quatro entidades carnavalescas, entre elas o Ilê Aiyê, artistas plásticos, compositores e líderes religiosos consagrados nacionalmente. Suas crenças expressam-se notadamente pelos deuses orixás, pelos ícones, símbolos, formas e cores dos afro-baianos. O trabalho informal atinge 60% das atividades na Rua do Curuzu. A rua concentra diversos empreendimentos culturais. O dado é do primeiro Censo Empresarial de Bairros, realizado por meio de pesquisa nos meses de abril e maio deste ano pelo Sebrae.Luciana Santana, líder do Projeto de Desenvolvimento dos Pequenos Empreendimentos Culturais, do Sebrae, explica que a idéia do Curuzu - Corredor Cultural da Liberdade é proporcionar a vivência da história, valores e a cultura afro-brasileira no seu berço. Segundo ela, o projeto tem como objetivo valorizar e divulgar a diversidade cultural e étnica existentes no bairro, tornando-se um destino turístico cultural que proporcione, através de pequenos negócios, o desenvolvimento sustentável da comunidade local.